“Alguém já perguntou, se as peças de xadrez se cansam de lutar pela causa do rei?”
Em Busca de um Novo Coração (pt.4)
A longa estrada de tijolos distribuídos simetricamente contrastava com o ofuscante verde do gramado. O dia havia amanhecido.
A chuva tinha deixado a paisagem levemente esfumaçada e algum cheiro de couro da jaqueta molhada, isto sem contar a sensação agoniante das meias encharcadas.
Imagens da noite passada aos poucos iam desaparecendo das lembranças a medida que seguia em frente. O sol começava a queimar e a tonteira começava a tomar o lugar das idéias. A busca dava forças ilusórias para continuar em frente, mas o cansaço consumia o corpo, e isto não podia ser ignorarado.
Observei um belo salgueiro a direita do passeio. Suas folhas cadentes cediam sombras suaves no verde e brilhante gramado ainda úmido. Deitei no berço formado por suas raízes e caí em sono profundo.
♥~
Os sonhos viam surgindo com a chuva do dia anterior. Aos montes, viam trazendo idéias, lembranças e ambições, mas nenhum coração.
~♥
Pude ver-me entrando na cidade iluminada pela noite, indo ao encontro do ente sem rosto e, como eu, sem coração. Percebi que ele fitava seu reflexo morto nas poças, como se buscasse as feições antigas (que já não existiam) que denunciassem os velhos sentimentos, tão perdidos quanto suas lembranças.
Entendi os motivos de sua tristeza… sem memórias, de fato, não havia prova de existência.
Um raio mudou o sonho.
~♥
Lá estava o espelho de meu quarto, trincado e empoeirado, bem diferente de como lembrava em momentos lúcidos. Não havia deixado ele assim, mas identifiquei de logo o quarto em que morava, com as roupas de cama desarrumadas e o cheiro de livros velhos.
Sentado na cama, estava o fantasma d’outros dias, afrontando seu reflexo pálido no outro extremo do quarto. Suas mãos fechadas escondiam uma rude peça de xadrez, um cavalo, que pela aparência já fora usada em muitos outros jogos.
Perdi-me em pensamentos mais uma vez. O que havia de significar aquela imagem? Qual seria o sentido da peça cansada do xadrez?
O barulho de vidro quebrando mudou o sonho.
~♥
A beira da estrada, uma dama sentada em um banco sozinha, com suas mãos entrelaçadas, a olhar-me atenta, esperando meus passos mais próximos com um sorriso receptivo.
Suas vestes longas cobrindo-a da cabeça aos pés, era possível ver uma unica mexa de cabelo louro descendo por sua face. Sua beleza era estonteante. Aproximei-me aos poucos.
“_Quem é você?” Perguntei, sem imaginar o porque de ela estar ali sozinha naquele banco.
“_Sou quem você menos espera, e quem mais espera você” Respondeu com o mesmo sorriso esboçado em seu rosto.
“_Se tanto me espera, porque não foi me buscar?” Indagava atento, esperando pegá-la de surpresa.
“_Espero pois as pessoas me buscam, inconscientes, assim como buscam suas casas após o dia de labor. Quantas vezes você já viu uma cama perseguir um homem?” Ela respondia contente em me surpreender.
“_Se você se compara com uma cama, ainda não entendo quem é você” A curiosidade já era aparente.
“_Seu tolo, sou a morte. E não queria estar no seu lugar” Respondeu a figura que agora se revestia de assombração.
“_Eu estou morto?” Perguntei esperando a confirmação.
“_Ainda não, mas em algum tempo estará, e não precisará reclamar de solidão, pois estará em minha companhia”
A idéia de ter a companhia de uma dama tão bela não era ruim, e cheguei a cogitar a idéia com um sorriso torto e escondido, que por óbvio foi percebido.
Ainda com aquele sorriso lembrei-me da jornada em que havia me metido, respirando fundo, respondi polidamente: “_Por mais que idéia me seja agradável, por se tratar de moça tão bela, não acredito que possa desfrutar de sua companhia no momento. Estou atrás de algo que, por acaso, me falta”.
A dama se levantou em prontidão, carregando em sua mão uma bela borboleta cor de fogo. Soltando um suspiro falso, deixou voar as palavras “_Não é a sua hora ainda, mas se deseja mudar sua sina, saiba que não lhe resta muito tempo. Se busca um coração, siga por esta estrada até alcançar a muralha de um castelo. Você não tem mais que um mês para isto, acredite…”
Não havia medo em meus olhos, mas me preocupei em não terminar minha busca. “_O que posso fazer para ter mais do que isto?”
“_Podemos apostar”. A proposta parecia lhe agradar. “_Se você encontrar seu coração na metade do que eu estipulei, te dou muito mais tempo do que lhe resta, mas…”, agora a dama olhava para o horizonte, escolhendo pacientemente as palavras.
“_Mas… se não conseguir…” Não sabia o que esperar daquela conversa.
“_Se em 16 dias suas busca não prosperar, vou lhe visitar com este mesmo sorriso, e tirar de você algo que já não faz tanto sentido. Seremos um só.” O soar leve do vento era harmônico com o balançar das mexas daquela moça.
“_Como vou chamá-la?”, confessava o interesse na proposta.
“_Chame-me de Sorte”.
“_Eu aceito o acordo, e lanço em suas mãos minha sina”. Continuava sem certeza daquele trato, mas já não tinha o que perder.
“_Em minhas mãos ainda não está lançada sua sorte. Em 16 dias contados, ao levantar da lua no horizonte, vou visitá-lo em sua solidão. Não peço que me aguarde, apenas que tente conseguir. Por mais que seja irônico, mortal, estou a torcer contra sua sina”. A Sorte havia se despedido de mim com um beijo em meu queixo, e antes que pudesse agradecer pela chance, despertei do sono com o toque de uma folha em meu rosto.
~♥
O dia já estava mais tão claro, a grama já não brilhava, e os tijolos continuavam imponentes rumo ao sul. Diante de mim, uma jornada com tempo contado e diversas dúvidas. Pelo que foi andado, pensamentos derrotados e uma história recém conquistada… restava cumpri-la.
O que eram as memórias, cavalo e a sorte? Era talvez os motivos pelos quais ainda andava, e havia de continuar…
~♥~
“…Talvez as peças não se cansassem de lutar pela causa do rei, apenas lutavam, sem precisar saber porque”.
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Definitivamente não é segredo. Espalhe:
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